By: mirago ligado: outubro 20, 2016 In: Alzheimer Comments: 0

Amor e carinho sempre. Por trás daquela aparência fragilizada e ausente, habita um ser carente que, independentemente de estar inabilitado para as funções verbais e cognitivas, reconhece e necessita de afeto.

Muitos pacientes com Alzheimer não estão cientes das dificuldades para o cotidiano. Por exemplo, é preciso lembrá-los dos horários da consulta médica, aniversários e visitas marcadas. Suas contas são pagas em atraso – ou não são pagas. Eles podem esquecer as suas coisas e respondem que “não há nada de errado”. Quando os parentes insistem, eles mudam de assunto ou ficam irritados. Isso os faz reduzir sua ansiedade, mas não a das pessoas de seu convívio.

O problema mais difícil para o parente cuidador é o doente que não dorme à noite, não reconhece sua residência e seus familiares e quer “ir para casa”. Antidepressivos como trazodona, na hora de dormir, às vezes ajudam, mas, em muitos casos, é preciso prescrever um medicamento antipsicótico, como a risperidona. Mas, como aumentam o risco de AVC ou até de morte, devem ser administrados em pequenas doses, somente quando não há opção e sempre com orientação médica.

Nesses momentos, é importante aos familiares cuidadores que não puderem ter um profissional em casa a realização de treinamentos sobre transtornos comportamentais.

Recomenda-se que o paciente tenha ajuda doméstica e também utilize uma pulseira com alerta de emergência de saúde. O familiar cuidador deve estar preparado para a perda de autonomia do paciente e considerar as opções de cuidadores profissionais e de instituições de longa permanência, dependendo do consenso familiar e da disponibilidade financeira.

O ideal é oferecer reabilitação neuropsicológica, musicoterapia, treinamento cognitivo, terapias muito úteis aos pacientes e a seus parentes.

Quanto mais se estimular o paciente com atividades que ativem sua atenção, concentração e raciocínio lógico, maior a chance de se preservar e melhorar suas capacidades cognitivas. No caso do Alzheimer, está comprovado que o tratamento medicamentoso aliado a exercícios de estimulação cognitiva pode auxiliar a retardar as perdas e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida do paciente e do cuidador/familiar.

Ao propor atividades ao paciente, alguns cuidados devem ser tomados:

  • Devem ser agradáveis, proporcionando bem estar e motivação.
  • Não devem ser muito difíceis nem muito fáceis, pois podem tornar o momento estressante, não estimulando a cognição ou menosprezando as habilidades ainda preservadas.
  • Não tratá-lo de forma infantilizada.
  • Criar uma rotina, estabelecendo horários para exercícios (uma hora por dia) que fortaleçam a memória.
  • Não realizar atividades muito longas.
  • Lembre-se, só haverá estimulação se ele próprio realizar os exercícios. Forneça dicas, caminhos, mas não resolva por ele.
  • Mantenha a casa organizada. Isso o ajudará a se localizar, encontrar seus objetos e se sentir com mais autonomia.

Além dos cuidados indicados, estimule o uso de agendas para anotações de datas de aniversários, compromissos importantes, estações do ano, feriados, datas de pagamentos, diário para descrição das atividades, entre outros.

Biografia

A maioria das pessoas gosta de contar sobre sua vida. O trabalho com fotos é uma ótima oportunidade para estimulação cognitiva.

Organizar álbuns antigos, rever o nome das pessoas, datas, cálculos para saber quantos anos se passaram. É comum o paciente começar a contar uma história e se perder no caminho, desviando o assunto. Portanto, tente ajudá-lo a manter a linha de raciocínio sem interrompê-lo e sem deixá-lo mudar o percurso da história.

Esquecimento de nomes

Pergunte sempre o nome de parentes e amigos. Nossa memória funciona melhor com dicas e rede de relações, por exemplo, “Fulano, filho de Sicrano, seu neto, formado em engenharia, casado com Beltrana”.

Outra alternativa é ver álbuns de fotos. Alguns se sentem incomodados quando vão a festas da família e não recordam os nomes. Sente-se com seu familiar no dia, ou um dia antes, e veja as fotos antigas, lembrando histórias, nomes, ajudando-o a se exercitar socialmente.

Socialização

Manter-se socialmente ativo é um excelente exercício: procure grupos de terceira idade, aulas de artesanato, atividades físicas, visitas a parentes e amigos que trazem boas recordações e horas de conversa.

Ir ao cinema, teatro ou assistir a filmes em casa é ótimo, principalmente se, após a exibição, vocês relembrarem o enredo. Atenção para que a escolha não recaia sobre enredos violentos. Dê prioridade a filmes dublados ou nacionais, comédias, romances e biografias.

Os cinco sentidos

Desenvolver a visão, audição, olfato, paladar e tato auxilia a preservá-los e é um ótimo exercício de estimulação cognitiva. Ofereça comidas de diferentes sabores, cores e peça que os descreva e tente adivinhar o que comeu. Tape seus olhos e peça para adivinhar objetos. Ofereça temperos para cheirar. Vá ao parque e peça para adivinhar os diferentes sons: pássaros, conversas, água, vento.

Música

O trabalho com música (musicoterapia) é uma excelente atividade multidisciplinar e serve para todos os estágios do paciente com Alzheimer. Esse tema é tratado de forma especial no site da Sênior Lar&Care (não deixe de ler).

Eventos cotidianos

Aproveite as situações do dia a dia para a estimulação cognitiva.

Ao sair de casa, solicite ajuda para pensar no caminho e relembre sobre o que encontrará no trajeto. Faça lista de marcas de produtos utilizados diariamente, como sabonete, creme dental, café, açúcar… Solicite ajuda na cozinha com receitas, mas cuidado para não expô-lo a nenhum risco.

Treine-o para atender telefone, anotar recados, deixando próximo ao local um bloco de anotações. Ao assistir TV ou ler jornal, converse sobre uma reportagem. Faça o mesmo em relação à atitude de um personagem da novela.

Ao chegar à sala de espera de um consultório ou cabeleireiro, solicite que feche os olhos e descreva tudo que lembrar ter visto.

Exercícios com palavras

É muito importante promover exercícios sobre a fluência verbal, a nomeação e a recordação livre das palavras, que são dificuldades típicas da Doença de Alzheimer.

Estimule a realização de listas de diferentes categorias em pouco tempo, tais como animais, nomes próprios, utensílios domésticos, frutas, entre outros.

Faça jogos de associações de palavras: diga uma palavra que faça parte do seu repertório e solicite a resposta com a primeira coisa que lhe vier à cabeça, por exemplo: você fala leite e ele responde vaca; você fala carne, ele responde churrasco.

Leitura

Ler trabalha a memória verbal, visual e raciocínio lógico, favorece a criatividade, a imaginação e incentiva os seniores a compartilharem sua própria história de vida, trazendo à tona as recordações.

Caso não haja interesse, leia e estimule sua vivência. Por exemplo, ao ler “havia uma casa no jardim”, cada um imagina como era esta casa, seu tamanho, cor. Estimule essa conversa.

A leitura de revistas e jornais também é bastante importante, pois ajuda a pessoa a se manter atualizada, além de beneficiar a imaginação.

Estimulando a mobilidade. Evitando complicações

Como a Doença de Alzheimer é progressiva, os doentes tendem a se movimentar menos, até que dependam totalmente de outras pessoas.

Quando bem realizada, a estimulação da mobilidade proporciona muitos benefícios, tanto físicos como emocionais. A caminhada e os exercícios de fortalecimento possibilitam em todos nós a melhora da força muscular, o condicionamento cardiorrespiratório, a sensação de bem-estar, além de outros benefícios, citados a seguir:

Melhorar o sono.

Alguns pacientes de Alzheimer apresentam alterações do sono, tais como trocar o dia pela noite, despertar precoce, dificuldade para se manter na cama em função da agitação para dormir, ou ainda períodos longos de sonolência e apatia durante o dia.

A atividade física durante o dia fortalece a marcação de tempo pelo cérebro – o nosso ritmo circadiano. Além disso, proporciona a sensação de cansaço, aumentando a necessidade de descanso. Muitos cuidadores permitem equivocadamente que o paciente durma durante o dia, acostumando-o à falta de necessidade de descansar à noite.

Diminuir a agitação

Um programa de atividades que inclua exercícios diminui a agitação e a agressividade.

A perambulação, que é o caminhar continuamente, é um dos exemplos maios comuns de agitação entre as pessoas com a Doença de Alzheimer. Pode aparecer de várias formas: andar excessivo e quase incansável, evitar ficar sozinho e ir checar onde você está (o tempo todo), andar noturno, em geral devido a um ritmo descontrolado durante o dia.

Muitos doentes ficam agitados, nervosos e até agressivos, verbal e fisicamente, em decorrência de delírios e alucinações.

Exemplos: a ideia de que há alguém dentro de casa que quer lhe fazer mal; que seu cônjuge tem um amante; acreditar que há alguém ao seu lado, mas que os outros não veem. É importante que o cuidador não contrarie esses delírios e alucinações, pois isso pode acentuar a agitação.

Diminuir comportamentos sexuais inadequados

A atividade física ajuda a direcionar a energia sexual.

Combater a obstipação intestinal

A redução da movimentação reduz a mobilidade intestinal, dificultando o trânsito intestinal e ocasionando o acúmulo de fezes. Exercícios utilizando a perna e o abdômen, como andar e outros localizados, favorecem a evacuação e a liberação de gases que causam desconforto e podem causar dor e agitação.

Melhorar a circulação

O inchaço nos pés e nas pernas devido à inatividade é bastante comum, principalmente com o avançar da Doença de Alzheimer. Uma boa circulação com movimentos dos pés para cima e para baixo e movimentos circulares do tornozelo ajuda o retorno venoso e diminui o inchaço.

Prevenir as pneumonias

Exercícios para os braços, caminhadas, principalmente com a estimulação da respiração, e se manter mais sentado ao invés de deitado favorecem os movimentos de expansão do tórax.

É importante nunca alimentar o doente deitado ou com a cabeça caída para frente, pois pode provocar o engasgo e evoluir para uma pneumonia por aspiração. Sempre que possível, deve-se retirar o excesso de saliva da boca.

Retardar o aparecimento de contraturas e deformidades

Com o avançar da doença, outras áreas do cérebro vão sendo acometidas, comprometendo também algumas áreas responsáveis pelo controle dos movimentos e da tonicidade da musculatura. Assim, são prováveis desdobramentos: a rigidez da musculatura, a postura curvada para frente com os joelhos dobrados, a instabilidade para andar, tendendo à queda, passos curtos e arrastados, o andar na ponta dos pés e a tendência a querer se sentar no meio do percurso de uma caminhada.

Instala-se a rigidez flexora que tende para a posição fetal, comum nos estágios finais da doença. Essa posição dificulta a higiene íntima e o sentar e favorece o aparecimento de escaras. Torna-se muito difícil estender as pernas e separar os joelhos. Exercícios de alongamento e de mobilização rítmica podem ajudar.

Nesta fase, não vale a pena forçar, pois uma manipulação mal feita ou um exercício bruto podem causar dor aguda.

AMBIENTE SEGURO

É importante reconhecer que a pessoa com a Doença de Alzheimer não é capaz de lidar com o ambiente como nós; ter noção dos perigos e evitá-los; tomar decisões tempestivas e de forma precisa ou filtrar estímulos desconfortáveis, como ruídos da rua. Assim, é importante pensar na adaptação do ambiente, tornando-o adequado e acolhedor, aumentando a segurança e facilitando a vida do cuidador.

As adaptações ambientais devem ser feitas respeitando-se a identificação que o doente tem com o local, pois mudanças excessivas podem descaracterizar o ambiente e torná-lo irreconhecível, acentuando a tendência de “querer ir embora”, por não mais reconhecer a sua casa.

Estratégias para adaptação do ambiente que facilitam o andar e o movimentar-se:

− Espelhos, só nos banheiros. Caso provoquem alucinações, retirar.

− Retire disfarçadamente objetos que causem excesso de estímulo ou alucinações, tais como quadros, tapeçarias, bibelôs, porta-retratos. Uma mudança de cada vez. Se notar alteração do comportamento, coloque o objeto de volta.

− Diminua o barulho: evite usar eletrodomésticos como aspirador de pó ou batedeira na presença do doente.

− Evite luz direta que possa causar ofuscamento da visão entrando pela janela. Controle a luminosidade com cortinas. Evite usar abajur que reflita sombras na parede.

− Retire passadeiras e tapetes soltos das áreas de circulação. Caso sua retirada provoque agitação, fixe-os ao chão com fitas adesivas e antiderrapantes.

− Carpetes com rugas ou dobras devem ser avaliados.

− Facilite a disposição dos móveis. Retire mesa de centro e deixe poucas opções de cadeiras para sentar. Demarque a favorita do doente com algo que facilite o reconhecimento.

− Evite colocar muitos dispositivos ao mesmo tempo, como barra no box, vaso sanitário, paredes, etc. Coloque a mais importante.

− O chão e as portas devem contrastar com as cores da parede. Isso favorece a noção do corpo e facilita o equilíbrio.

− Restrinja o acesso a áreas de perigo, como escadas e cozinhas. Acesso só com supervisão. Feche a porta, coloque trancas.

− Elimine objetos do caminho, como fios de telefone, sapatos, tapetes, brinquedos. Não permita animais de estimação que pulam ou se enroscam nas pernas do doente.

Mudanças de posição

− Dê ordens simples e claras, como: levante-se. Não adianta explicar muito.

− Evite pegar pelas mãos ou braços. Pegue com firmeza (sem força) e segurança em partes mais centrais, como quadril e tronco. Não suspenda pelos ombros.

− Use as palmas das mãos e não os dedos. Mantenha unhas bem cortadas. A pele dos idosos é muito fina.

− Quando o doente não estiver mais conseguindo ajudar, o cuidador terá que realizar todos os movimentos. Use seu corpo como aliado, afastando bem os pés, dobrando levemente os joelhos, colocando sua barriga para dentro e protegendo a coluna. Peça ajuda quando necessário.

− Existem cintas lombares que ajudam a prevenir lesões nas colunas. O cuidador também deve fazer alongamentos e fortalecimento muscular.

− Atualmente, existem camas hospitalares que têm um mecanismo para erguer a altura dos pés e do encosto. Isso pode ajudar muito.

− A posição do doente deve ser confortável e funcional, pois sua tendência é assumir uma posição flexionada sobre si mesmo. Para prevenirmos que esta posição se intensifique, teremos que tentar uma posição mais esticada, tanto dos braços como das pernas. A posição de barriga para cima é a que mais favorece. Além de deixar os joelhos esticados, procure manter o corpo e a cabeça bem apoiados e colocar uma almofada entre a sola dos pés e a cama, para evitar que fiquem caídos.

Na posição sentada, os pés devem estar bem apoiados, de preferência no chão ou sobre listas telefônicas que formem um ângulo de 90 graus no quadril, joelho e tornozelo.

Andador, bengala, cadeira de rodas.

Se o doente já usava andador e bengala antes do início da doença, é possível mantê-los por um bom tempo. Aprender coisas novas se torna muito difícil.

A cadeira de rodas deve seguir parâmetros antropométricos do doente: altura, peso, largura do quadril, comprimento das pernas, para que as medidas da cadeira sirvam “como uma roupa”. Além disso, sabemos que, de certo ponto da doença em diante, o uso da cadeira será indispensável, até o momento em que o paciente vai alternar entre ela e a cama.

As lições dos cuidadores de pacientes com a Doença de Alzheimer

− Respeitar as capacidades cognitivas ainda conservadas.

− Respeitar a história de vida.

− Permitir a independência no uso de banheiros, retardando o uso de fraldas até quando for possível.

− Estimular a parte cognitiva, usando a capacidade de praticar atividades da vida diária e diversificadas.

− Estimular a interação com outras pessoas.

− Incentivar a autonomia.

− Admitir a possibilidade de haver memória de paladar.

− Sons, imagens e cheiros ativam a memória e trazem recordações que amenizam os comportamentos.

− Lembrar sempre que, nas síndromes do crepúsculo (finais de tarde), é preciso evitar que a pessoa com demência perceba esse momento, desviando sua atenção para outras atividades.

− Lembrar que frases repetidas nem sempre querem dizer o que parece.

− Dar liberdade de espaço e circulação.

− Durante certo tempo, as lembranças povoam o cérebro frequentemente.

− Quando estimulamos atividades, devemos respeitar as lembranças e as preferências.

− O ritmo biológico não é perdido, mas se readapta a novas situações.

− Às vezes, é preciso ter paciência para esperar e ouvir respostas.

− É preciso levar em conta a nacionalidade do paciente, assim como seus hábitos alimentares.

− Lembrar sempre que a colaboração nas atividades depende da disposição de momento.

− O sucesso da colaboração depende de uma negociação bem-sucedida.

 

 

 

 

 

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